Dois minutos após a saída dos dois passageiros deu entrada um novo. Este tratava-se de uma senhora um tanto ou quanto peculiar. Não era certamente como aquela mulher padrão que circula diariamente em toda a parte, que se encontra no supermercado a comprar batatas e beterraba, na estação de correios a enviar cartas para familiares longínquos, no centro da cidade a tomar um chá de mentol nos dias menos providos de calor, no teatro a assistir uma peça de encenação estrangeira, no aeroporto a embarcar rumo ao outro conto do mundo
Aquela, pelo contrário, era uma cidadã menos comum à vista pública. O seu cabelo estava pintado de loiro e fora recentemente esticado e tinham-lhe sido aplicadas algumas madeixas azuladas que na verdade pouco o favoreciam. A franja muito direita e arranjada tapava uma testa perceptivelmente larga e o uso excessivo de maquilhagem tentava omitir diversas irregularidades capilares conferindo à face um tom acastanhado, em nada natural. O seu nariz era fino e demasiado aguçado, dando a entender ter havido por ali mão cirúrgica, e os lábios exageradamente grossos e carnudos não mostravam o contrário. Os olhos, não menos adornados, portavam uma espessa camada de rímel que em nada embelezava as pestanas e os olhos azuis naturais, pareciam quase que artificiais reluzindo ali naquela cara acastanhada. O pescoço apresentava-se já algo enrugado, o que não combinava com a elasticidade do rosto, e os seios estavam demasiadamente inchados e arredondados. Wojciech não se imaginava na pele de uma mulher que suportasse tamanho peso a nível de seios, inevitavelmente viria a sofrer de problemas de coluna dali a uns anos. As mãos da senhora eram bastante grandes e feias e quase todos os dedos entravam em anéis prateados, ora com pedras aparentemente preciosas, ora sem elas. As unhas, também elas falsas, mediam à volta de três centímetros e estavam pintadas de vermelho forte. Wojciech pôde ainda reparar que uma unha de cada mão tinha sido decorada com três pequenos brilhantes incrustados naquele material duro que a constituía. A indumentária da recém-chegada passageira era deveras descoincidente; na cabeça trazia um chapéu bege que se assemelhava a um akubra australiano e que tapava quase que por completo a franja e lhe sombreava os olhos. Um corpete preto com alguns rendilhados fazia-lhe desbordar os seios exagerados e um casaco de cabedal castanho-escuro exalava o seu cheiro intenso. As calças de ganga eram azuis claras e tinham pequenos enfeites dourados em forma de estrela junto aos bolsos laterais. Enfiara os pés em botas de pele de cobra com um tacão altíssimo e fino que quase fazia lembrar uma agulha. O corpo e as roupas daquela figura bizarra exalavam um odor demasiado acentuado que combinado com o cheiro a cabedal provocava certas náuseas a Wojciech. A velha senhora olhava de vez em quando aquela estranha mulher que tão espampanantemente se apresentava à sua frente mas na expressão do seu rosto não havia escárnio nem inveja, mas sim um leve vislumbre de indiferença. A mulher agitava-se constantemente e com a ponta dos dedos ossudos abanava o longo cabelo loiro que lhe chegava até meio das costas. De vez em quando retirava da sua pochette Louis Vouiton um telemóvel topo de gama, certamente aguardava ansiosamente alguma chamada ou mensagem importante. Se Wojciech fosse uma pessoa menos perspicaz não teria percebido o que aquela mulher realmente significava, era o antagónico daquilo que tão forçosamente tentava parecer.
- Listening to: "Waterloo" - Abba
- Reading: "Na Drini Cuprija" - Ivo Andric
- Watching: Eurovision 1974
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find the balance
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"What I want above all is to destroy the idea of culture. Culture is an alibi of imperialism. There is a Ministry of War. There is a Ministry of Culture. Therefore, culture is war."
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"Queria vomitar o que vi só da náusea de o ter visto,"
te agradeçoo
bom natalício
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"Queria vomitar o que vi só da náusea de o ter visto,"
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"What I want above all is to destroy the idea of culture. Culture is an alibi of imperialism. There is a Ministry of War. There is a Ministry of Culture. Therefore, culture is war."
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